CARTOGRAFIAS DO INVISÍVEL, 2019

Nesta série, a escala é usada na investigação da questão relacional que se estabelece entre o obra e o outro, tecendo cartografias quase invisíveis e reiterando o olhar-macro (de quem faz e de quem percebe).  Os papéis desta série  têm 100 cm de comprimento ou de altura e os desenhos  deliberadamente tem uma proporção bem menor, ocupando sutilmente o espaço, insinuando uma aproximação para percepção do detalhe. 

Existe uma ênfase  no uso do grafite para tecer linhas claras,  que tanto revelam o gesto rápido do desenho de observação dos insetos assim como para sugerir possíveis rastros de movimentos. Os insetos por sua vez, também se apresentam em algum tipo de relação (de morte, de sexo, de comunicação ) e os desenhos evocam a rapidez  tanto de seus movimentos, assim como a rapidez da observação contemporânea. 

 

Instala-se o paradigma da concentração: para poder perceber a existência dos insetos é preciso um olhar atento e para desenhá-los é preciso agilidade e rapidez.  A investigação nesta série se dá no campo da concentração que o ato de desenhar demanda. Retomo a abordagem do hitsu-i, já pesquisada em Descaligrafias (2014). O conceito emprestado da Caligrafia Oriental refere-se ao espírito do pincel e explora  instante em que o pincel entra em contato com o papel e revela a mente do artista.  O ato de observar e desenhar fundidos, acontecem na máxima presença e integração corpo/mente para realizar o movimento  harmônico e rápido.  Meu corpo-desenhante se coloca no campo do papel buscando o gesto preciso, não há espaço para o retorno, o retoque, a reparação. 

 (fotografias José Terra) 

COSMOGRAFIAS, 2019

Nesta série, ao contrário da série anterior,  Cartografias do Invisível, o uso do carvão como principal material não deixa dúvidas sobre a materialidade e presença dos desenhos.

 

Todos os desenhos têm 50 x 50 cm numa referência às imagens  quadradas das mídias sociais. Mesclando visualidades do observado diretamente - insetos encontrados mortos nas luminárias redondas da minha casa -e do observado a partir das imagens de Instagram de perfis que publicam imagens do Universo distribuídas pela NASA, torno a abordar a transversalidade da construção da visualidade contemporânea.  

 

O olhar-macro se debruça sobre o que não é facilmente visível e óbvio. Fundem-se imagens que por um lado evocam uma visualidade do infinitamente grande (imagens do universo/cosmos) e distante ao minúsculo e próximo (insetos).  Os desenhos revelam ultra-realidades:  insetos e elementos cósmicos fundem-se  como símbolos daquilo que não é percebido, ou daqueles que não são deliberadamente reconhecidos, e portanto existem na invisibilidade.

500 m PROFUNDOS  2019

Nesta série,reitero o desejo da aproximação do público  a partir de uma observação mais lenta dos detalhes que se inscrevem nas folhas desenhadas. Se inscrevem pois foram feitos com ponta seca sobre óleo,  são incisões no papel, assim como foram as primeiras caligrafias orientais, que são uma referência constante em meu trabalho, tanto pelo tratamento da composição assim como pela atitude de registro visual concentrado corpo/mente.

Embora os desenhos tenham 1m x 1m e possam ser vistos de longe num olhar de relance, estou interessada em evocar o olho-macro do espectador pois  é apenas com a aproximação que se percebem os insetos. 

 

Novamente mesclo visualidades do observado diretamente - plantas coletadas ao longo de uma caminhada e  insetos  observados a partir das imagens de fotografias macro do website Flickr, abordando a transversalidade da construção da visualidade contemporânea. 

(55 11) 9 8290 6651

  • Mirla Fernandes Instagram