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A TERRA É AZUL

"Quem sabe se, quando o astronauta Iúri Gagárin disse “a Terra é azul”  ele não fez um retrato ideal daquele momento para essa humanidade que nós pensamos ser.”

(KRENAK, 2019)

 

Um dia, uma aluna me disse: “eu não gosto de desenhar plantas porque plantas não passam emoção”. Eu achei estranha essa colocação que me fez pensar sobre a minha relação com a representação da natureza. Eu me dei conta que eu venho desenvolvendo um trabalho sobre a paisagem que, ao contrário do aquela aluna pensava, carrega uma forte conotação emocional em sua origem.

 

Eu comecei a pintar em certa medida por causa de meu avô João. Quando eu nasci, ele já tinha falecido, e por isso eu ouvi muitas histórias sobre ele. Histórias que sempre foram acompanhadas pela presença de suas pinturas na minha casa, na casa de minha avó, tias e tios. Vô João na casa de seus vinte anos, morava em Paranapiacaba e descia até Santos para pegar o navio rumo ao Rio de Janeiro. Lá ele foi aluno ouvinte da Escola Nacional de Belas Artes. Esteve aprendendo em meados dos anos 1920, momento no qual havia tanto tendências acadêmicas como impressionistas entre os professores e alunos.

João Fernandes não era aluno regular e acabou por voltar para Paranapiacaba onde se casou e teve 4 filhos. Foi professor de desenho e pintava em tudo quanto é superfície. Ouvi histórias de como pintava os vestidos das filhas, pintava sobre os móveis, pintava sobre portas. E cresci olhando para suas aquarelas que retratavam as paisagens e as casas de Paranapiacaba, e depois de São Caetano do Sul para onde se mudou.

Foi apenas recentemente que me dei conta do quanto minha predileção pela representação da paisagem tem uma origem tão emocional na medida que pintar paisagens como ele era também fazer parte de uma história familiar, de pertencer e, ao mesmo tempo, de nutrir uma relação mítica com a paisagem.

Porém eu não moro em Paranapiacaba. Sequer conheço. O tempo da minha relação mítica com a natureza é o tempo  trazido pelas histórias ouvidas sobre meu avó e cujas referências visuais eu conectei às pinturas dele. É também um tempo muito imaginado que eu expresso pela pintura e o desenho.

RETRATOS EM AZUL, 2021

Meu interesse pela representação da natureza, por outro lado, é o de evocar uma ligação ancestral, é uma recuperação de laços. Cada planta, cada árvore que eu desenho, eu estabeleci de alguma forma, algum tipo de conexão. Eu tenho retratado as plantas do meu entorno. O caminhar pelas proximidades da minha casa traz muito de asfalto, de barulho, de poluição, sobretudo de exploração imobiliária. Cada casa que cai para dar espaço a torres de mais de 20 andares leva consigo inúmeras árvores e outras espécies.

 

Nas caminhadas eu decidi explorar uma percepção seletiva para as plantas do caminho. Essas plantas do meu caminho, da minha convivência de cidadã vêm se tornando tão familiares quanto as aquarelas de meu avô. Elas me dão algum tipo de certeza, de apoio. Elas estão lá, enraizadas. Essas plantas que têm um lugar tão especial  na minha contemplação, eu comecei a retratá-las e dar nomes de amigos. Não quero trazer os nomes científicos, pois eles não falam de sua identidade e eu não sou Carlos Lineu. Esta série continua em desenvolvimento e pretendo continuar esses retratos dessas plantas com as quais eu crio um laço afetivo e que estou denominando Retratos em Azul, mesclando a idéia de retrato e paisagem ao mesmo tempo. O azul está aqui sublinhando o destacamento que faz o meu olhar.

PLANTAS, 2021

Escolhi o azul também por outro motivo. Aqui eu tenho que contar que na minha infância eu também convivi com as cópias heliográficas das plantas de obras que meu pai trazia para casa. E eu prestava atenção naqueles desenhos tão precisos de outras plantas, as plantas arquitetônicas. Aquele azul meio lavado das “blueprints” evoca portanto mais uma ligação com a família, que eu deixei mais explicita na série Plantas.

 

Nessa série eu pintei plantas azuis sobre plantas arquitetônicas que iriam ser descartadas de projetos do meu pai. Eu já tentei ser arquiteta, fiz um semestre de faculdade para descobrir que não consigo operar na precisão matemática da geometria. Mas eu admiro muito a precisão da linha das plantas de arquitetura. Então esses desenhos/pinturas são a possibilidade que eu encontrei de dialogar não apenas com a minha herança familiar, mas também com a questão da precisão. A minha precisão não se dá pelas medidas precisas, mas através do meu gesto, que precisa ser certeiro pois é feito diretamente sobre o papel, sem esboços.