PLANO DIRETOR

"Não existe uma lei dos três estados noológicos: o mítico, o religioso e o racional. Não somente formas noológicas antigas persistem entre as modernas, mas nelas se enraízam e as parasitam, encontrando vida nova mediante o domínio ideológico."

(DIEGUES, 2008)

 

As pesquisas que venho fazendo em relação à  paisagem lidam com a questão da construção de uma visualidade a partir do deslocamento. Inicialmente um deslocamento real pelo meu entorno, e mais recentemente, errâncias virtuais pontuadas pelo imaginário.

Como afirma Careri, a percepção/construção do espaço nasce com as errâncias paleolíticas. A história da origem da humanidade é uma história de errância, de caminhadas que levaram a descobertas e operações complexas de apropriações e por conseguinte,  mapeamentos. Nas culturas primitivas perder-se era a possibilidade para tornar-se grande. Cada percurso é a potencialidade de alcançar novas consciências. A errância distingue-se do nomadismo pois a primeira desenvolve-se num percurso ainda não mapeado, sem previsão de retorno.  Assim quero evocar o primordial e cada passo desse deslocamento é descoberta. 

É graças ao plano diretor urbano que uma cidade se desenha: casas caem parar dar lugar a prédios, surgem comércios, novas ruas, pessoas se vêem obrigadas a se deslocar e meu entorno se transforma.  Plano Diretor acolhe várias séries e evoca mapeamentos conduzidos pelo acaso e pelo imaginário, pelo  desejo de uma outra ordem. Reúne diversas mídias (fotografia, vídeo, pintura, colagem e desenho) em operações de observações assim como de deambulações. 

 rte contemporâne

Através do uso de uma linguagem que opera em camadas, o mítico, a memória e o real encontram-se interligados.  Em Blueprints e Repavimentação, a paisagem é território para intervenções utópicas, nas quais os rios que correm escondidos pelo asfalto podem ressurgir. Plantas e animais em escalas e planos em contraste às vistas aéreas retiradas de aplicativos ou de pavimentações típicas da cidade.

 

Nestas séries estou revisitando esse lugar imaginário que eu cultivei internamente. O azul dos trabalhos remete às cópias de plantas arquitetônicas que costumavam ser azuis. Os blueprints também vêm de uma memória de infância, das plantas que meu pai, arquiteto, trazia para casa.  

 

Mas também sublinham a ideia do irreal, apenas imaginado, desejado. Quando criança eu vivi em uma cidade bastante poluída, sentir o cheiro da borracha queimada no ar era o normal. Por outro lado, sempre ouvi histórias de meus pais de como essa mesma cidade era diferente quando eram crianças: como se comprava comida direto da horta, ou como eles brincavam em terrenos baldios, fazendo os próprios brinquedos. Ouvir esses relatos ativava a imaginação de um lugar e um passado mítico, no qual havia uma outra relação com o cotidiano e a cidade, uma época em que não se vivia o colapso ambiental. 

Deambulação 1
Deambulação 1

Fine Art Print

Deambulação 2
Deambulação 2

Deambulação 7
Deambulação 7

Deambulação 1
Deambulação 1

Fine Art Print

1/7

Deambulação, 2021 

"A deambulação é um chegar caminhando a um estado de hipnose, a uma desorientadora perda de controle, é um médium através do qual se entra em contato com a parte inconsciente do território."(CARERI, 2020)

Nas minhas errâncias virtuais durante a pandemia, daquilo que  é possível através de aplicativos, escolho o processo de deambulação.  Ele se distingue da deriva de Guy Debord, pois não tenho uma intenção analítica, não escolho previamente para onde vou. 

Exploro o aplicativo em seu limite para extrair dele imagens escondidas. Dai vão se construindo coleções de cartões postais como que do inconsciente do aplicativo, expondo paisagens distorcidas, mas não menos absurdas que as reais.

A série de desenhos feitos com bastão de óleo vieram da observação do entorno de onde moro. Uma observação que encontrava nas plantas um eco das histórias ouvidas em criança, como se elas me permitissem me aproximar de um lugar seguro.

Olhar as plantas com cuidado me fez enxergar os insetos, vivendo em um mundo paralelo onde se tecem outras cartografias. Observá-los abre uma possibilidade de um contato com um outro tempo, um tempo de contemplação e sensibilidade.

mirlafernandes_densidades.JPG
mirlafernandes_densidades.JPG

Cartografias Invisíveis, 2019

Ainda nesse processo de deambulação, desse perceber que  é permeado pelo  real e o imaginário, surgem os desenhos a carvão feitos a partir inicialmente dos insetos que encontrei em minha própria casa, para então partir para novas visualidades.