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“Passar o dedo pela touchscreen é um movimento que tem uma consequência na relação ao outro. Ele elimina aquela distância que constitui o outro em sua alteridade. Pode-se passar o dedo na imagem, tocá-la diretamente, porque ela já perdeu o olhar, o rosto. Com o pinçar [a imagem], eu disponho do outro. Descartamos o outro com o passar do dedo, a fim de deixar que nossa imagem espelhada se apresente”

 

Trecho de: Byung-Chul Han. “No enxame.”

DISPONÍVEIS , 2016 - 2021

Artista visual, arte contemporanea

Disponíveis é uma série que comecei em 2016 e a qual venho lentamente construindo diante da minha relação com as mídias sociais. Esse é um assunto que me interessa: como elas têm um poder perturbador e formatador de nossos comportamentos e consequentemente, nossas visualidades. Nesse tópico me interessam particularmente os aplicativos de relacionamentos.

 

Foi nessa época que resolvi entrar no Tinder pela primeira vez e ali encontrei uma expressão muito singular. Um mundo imagético da sedução que se mostrou permeado por tantos outros signos. Homens que eu poderia cruzar na rua mostravam facetas impensáveis em seus perfis. Não pela questão de um choque moral, mas pela vulnerabilidade, pela exposição de valores que se entrelaçavam à busca de uma companheira. Por cada detalhe nas imagens ou  pelos textos com os quais se descrevem,  esses homens se expõem em sua disponibilidade ao mesmo tempo em que revelam padrões advindos do machismo estrutural.

Uma avalanche de informações visuais que me inspiram para desenhar. Desenhar e pintar para entender.

Os trabalhos que mostro aqui têm a ver portanto, com uma investigação do retrato e do autorretrato do outro,  com a nossa relação de construção da autoimagem.