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LONGING FOR THE BODY, 2004-2005

"Quando se pensa em joia, a primeira imagem que vem a mente está ligada à joalheria tradicional, de caráter ornamental, com gemas e metais preciosos. Entretanto, paralelamente a essa produção comercial, uma outra abordagem de caráter conceitual vem se desenvolvendo ao longo dos últimos 40 anos: a arte-joalheria. Trata-se de uma produção que abarca manifestações artísticas que se valem do corpo como suporte para as obras e cuja ênfase está na elaboração de um discurso poético sobre o universo da joalheria e/ou do objeto-joia em todos os  seus desdobramentos simbólicos e conceituais. Assim a joia não é entendida por sua materialidade preciosa ou função decorativa, mas por sua essência enquanto objeto simbólico dado à visibilidade, como um veículo de expressão do sujeito e de seu tempo. Para além do objeto em si, a joia define-se mais como uma plataforma de manifestação dos desejos individuais e coletivos que, ao ser produzida no campo da arte, almeja destacar-se como um meio de problematização do sujeito contemporâneo e de seu contexto.

 

É sobre esse território que se desenvolve o trabalho de Mirla Fernandes, que se graduou em Bioquímica (1991) e

Artes Plásticas (1998) no Brasil, antes de estudar arte-joalheria na Alemanha (Pforzheim, entre 1999 e 2000).

Em 2006 teve sua primeira exposição individual na Galerie Biro (Munique) com a série Longing for the Body, cujo

título traz explícita referencia à obra de Ligia Clark na medida em que os trabalhos necessitam claramente de um

corpo para completarem seu sentido no mundo.

(...)  A importância do corpo ganha contornos específicos na obra de Mirla Fernandes como, por exemplo, em Eu sou a

medida (2000) na qual a artista começa a usar o próprio corpo como molde ao invés dos instrumentos usados

pelos ourives. Em Longing for the Body (2005) sua intenção foi explorar, a partir da escolha do látex como

material, uma gestualidade semelhante à da pintura. Em termos técnicos tratava-se de um líquido que aceitava

bem pigmentos, uma espécie de tinta que se solidificava e podia estar sobre o corpo. Dessa escolha veio o

interesse nas relações entre a ampla gama de cores que o material permitia trazer às peças (o que não acontece

na ourivesaria tradicional) e as relações inesperadas nas futuras composições com as roupas das pessoas. Para

ela isso serviu para extender a compreensão da interação corpo-joia e tomar consciência do descontrole que

haveria sobre a obra. Esses aspectos foram as diretrizes na criação da série e se apresentam tanto em sua forma

de produção quanto no resultado final (Fernandes, 2011).

(...) As peças dessa série são convites para um descobrimento, abrindo possibilidades de ocupar lugares no corpo que

não estão pré-determinados e comportando ainda um uso coletivo de algumas peças . Seu

título é uma homenagem a Ligia Clark.

(...) Ainda que a primeira imagem que venha a mente seja a de um corpo oco, uma casca, desprovido de funcionalidade, o Corpo sem Órgão descrito por Deleuze e Guattari (1996) não consiste na ideia de eliminação dos órgãos. "O CsO não se opõe aos órgãos, mas a essa organização dos órgãos que se chama organismo" (Deleuze e Guattari, 1996:21). Para os autores o organismo não é o corpo e sim um sistema composto por formas, funções, ligações e organizações dominantes e hierarquizadas que se impõem sobre o corpo. Na matriz da proposição de um CsO está o desejo de que a determinação funcional implicita na organização fisiológica do corpo pode e deve ser desmanchada, de modo que qualquer 'maquina' possa se expandir para além de um programação pre-determinada.

A concepção dos autores serve aqui para pensar no papel da joia e do corpo transformados pela disciplina da arte-joalheria, o que pode ser exemplificado no trabalho de Mirla Fernandes. Sua série Longing for the body se configura como uma experimentação que desorganiza a materialidade e o modo de fazer a joia, afastando-se de técnicas, práticas e tipologias pré-determinadas. Ao incorporar a gestualidade, o acaso, o descontrole, ela constrói para si um CsO, um campo de imanência do desejo que resulta em objetos-joia capazes de transformar o sujeito que usa e o que vê em espectadores-ativos, refletindo inclusive a essencia coletiva inerente à propria condição da joia. Nesse sentido as peças potencializam ainda a construção de outros CsO pois transformam usuários e espectadores em espaços de produção coletiva de novas possibilidades de interação corpo-joia, desorganizando as estruturas tradicionais de ocupação do corpo e uso da joia.

Em Longing for the body Mirla Fernandes evidencia um interesse nas relações entre sujeito e objeto, relações que se constroem para além do controle ou intencionalidade da artista. Por meio de formas que extrapolam a tipologia da joalheria tradicional suas peças se oferecem como possibilidades, convites para a exploração de lugares no corpo e de relações com outros corpos na forma de uso coletivo.

 

Seu trabalho permite compreender os propósitos da disciplina da arte-joalheria em sua proposta de questionar os valores e significados das joias, banalizados por seu entendimento vinculado apenas a ideia de decoração e status. Em sua essência tanto a arte-joalheria como a serie Longing for the body explicitam desejos de desorganização das convenções sociais, servindo de exemplo prático de construção de um CsO.

Ana Paula de Campos

trechos de Corpo-joia: reflexões a partir da série Longing for the Body

Fotografias: André Penteado

(55 11) 9 8290 6651

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